CRÍTICA |  O Último Animal

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Não é novidade assistir a mais um filme que tenta mostrar as intersecções entre a vida periférica e a vida burguesa no cinema brasileiro, principalmente com as filmagens acontecendo no Rio de Janeiro. O realizador Leonel Vieira, português, sonhava há muitos anos realizar um projeto com esta temática.

O que, obviamente, sempre provoca uma reação negativa quando um diretor de contexto social quer se aventurar em uma história totalmente diferente socialmente, ainda mais com uma filmografia ampla e diversificada sobre o assunto, desde Rio, 40 graus (1955) de Nelson Pereira dos Santos, passando por Tropa de elite (2007) de José Padilha até Alemão (2014) direção de José Eduardo Belmonte. No entanto, isso nunca definirá completamente uma obra.

O Último Animal se passa no Rio de Janeiro contemporâneo e conta a história de Didi (Junior Vieira), outro dos milhões de moradores de favelas da cidade que sonham em melhorar sua vida e a de sua família. A vida do protagonista muda de rumo após descobrir seu envolvimento indireto com Dr. Ciro, o chefe do jogo do bicho.

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Desde os primeiros segundos, o filme transporta a experiência para o embate entre a vida favelada e a vida burguesa, sempre deixando claro seus lados na sociedade. Sempre com closes e aproximando o espectador dos personagens, a conexão acontece quase que instantaneamente, inclusive com o bom uso da narração para se acostumar com a situação a cada vez. Isso, alinhado a uma forma que prioriza a imagem no início da obra, gera um efeito poderoso.

O narrador afirma: “A merda fede mesmo quando o bicho resolve usar terno e gravata”, e vem uma das melhores passagens do filme. Quando chega para a entrevista de emprego, Didi é o único negro e o entrevistador o trata com grosseria e enxuga a mão após cumprimentá-lo. Sentando-se para responder a um formulário, o protagonista é colocado no canto inferior direito da tela, em um ambiente mórbido, sufocando-o na composição do plano. Nessa cena simples, o diretor coloca a questão que será debatida ao longo do restante do filme.

Embora o primeiro ato siga essa decisão estilística, as inúmeras relações distintas entre os diferentes personagens funcionam como um freio ao desenvolvimento do filme. Buscando mostrar a complexidade da vida urbana carioca, a obra se deixa levar pela própria ambição, tentando ampliar as relações entre os personagens, mas acaba apenas enchendo o filme com situações mais questionáveis. O principal destaque do filme neste momento centra-se no desenvolvimento de três grupos: Didi, Alex e os chefes de cada lado social (Calango, irmão de Davi, e Frank Martinez e Ciro, chefes de esquemas ilegais envolvendo jogos de azar, corrupção e tráfico).

Neste último núcleo emergem os destaques do filme, pois a relação entre Didi, Alex e suas respectivas vidas preparam o embate direto desses lados sociais, ou seja, tiroteios na favela, investigações e, como cereja do bolo, o social ascensão de cada um. Em vez de focar em cenas abstratas que foram muito bem aproveitadas na primeira parte, o filme foca em diálogos extensos sem o mesmo impacto visual. No início da operação policial na favela, a montagem mostra Didi observando tudo pela janela de sua casa, em plano médio apenas filmando-o por trás. Há um corte no braço do personagem, com ele cerrando o punho. Então sua mãe estava de joelhos, orando. Essa sequência acontece sem a exibição de tiros, estando eles presentes apenas no áudio de fundo. É nesta escolha mais visual, mais focada em mostrar do que em contar, que o filme encontra os seus momentos mais emblemáticos.

A raiva de David pela morte de seu irmão e sua futura mudança de rumo na vida não são faladas ou escritas na tela, mas a visão do futuro é óbvia. Complementando esse ritmo e elevando a obra, as cenas seguintes são mais diretas, buscando sempre deixar evidentes as expressões de Junior Vieira em sua nova jornada de vingança. Do recém-formado em busca de emprego ao sucessor do chefe da favela após a perda do irmão, o impacto é grande para o espectador, pois a linguagem do filme destaca claramente a diferença entre a vida pobre e a burguesa, já no primeiro ato, como disse .

O ritmo entre uma cena contemplativa, uma cena direta e a narração já havia apresentado um impacto maior, principalmente porque os elementos cinematográficos já estavam afinados na tentativa de conectar mais profundamente o espectador com os personagens centrais, principalmente com enquadramentos mais próximos e iluminação variada. com a realidade de cada personagem no palco. Enquanto as cenas com a presença de Frank e Alex, a burguesia, tinham um tom branco acompanhado de trajes mais formais, as passagens com Didi são amareladas, lembrando sempre aquela forma clássica de diferenciar patrões e rebeldes.

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Com seus pontos altos sendo o primeiro e o último ato, O Último Animal acaba produzindo uma grande reflexão sobre a realidade brasileira, especialmente carioca, e suas inúmeras complexidades. Porém, sua ambição de falar mais sobre o espetáculo acaba freando o que poderia ser um trabalho mais impactante.

Foto/Divulgação: © StopLine



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